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sábado, 30 de novembro de 2013

VELHICE

Noutros tempos, era requisitado, disputado até, numa pomposa cerimónia, num funeral, numa festa, num casamento, numa comemoração solene, tanto por grandes senhores, como por ilustres damas, ou por frescas, joviais e apetitosas donzelas.

Do mais poderoso ao mais humilde, todos consideravam indispensável a sua companhia em qualquer lugar, debaixo da mais impiedosa intempérie ou sob um sol tórrido. Gabavam-lhe as vestes acetinadas, de padrões modernos, escolhidas com gosto, sempre impecavelmente vincadas. Admiravam-lhe a elegância e a firmeza do corpo, a sobriedade e recato da sua presença e do seu trato, a simpatia e disponibilidade para servir os outros.  Percebia que todos tinham até um certo orgulho em tê-lo junto deles.
Não se envaidecia por isso. A sua natureza simples e humilde, não conhecia a vaidade, nem o preconceito, nem o ódio. Pelo contrário, tinha um espírito verdadeiro democrático, era igualmente prestável e educado para com os pobres, os ricos e os remediados, fossem homens, mulheres, crianças ou jovens.

Com o passar dos anos, foi gradualmente perdendo os favores dos mais poderosos, sofrendo calado, a petulância dos novos ricos, e sentindo o desprezo daqueles a quem a vida oprimia e que não se dispunham já a dedicar-lhe a atenção a que antes o tinham habituado.
Já ninguém reparava nele, esquecendo-o como se não existisse, abandonando-o às suas memórias. Chegavam a virar-lhe a cara para não terem que suportar a sua presença, de que chegavam a sentir vergonha. Entristecia-se e amargurava-se, sem um queixume, por causa dos risos de chacota da juventude que, cruelmente, às vezes o invectivava, chamando-lhe velho, desactualizado, fora do seu tempo, quase inútil.
Como se a velhice fosse um estigma, conjecturava ele… Como se ele já não tivesse sido também jovem, bonito, adulado, moderno, como agora eram os que o enxovalhavam.
Sofria de artrose que lhe fora deformando o corpo. O vestuário antigamente elogiado e olhado com espanto e mesmo invejado por todos, estava agora amarrotado, com alguns rasgões aqui e ali, que ele procurava disfarçar com remendos toscos que almas caridosas lhe costuravam.

No hospital, pediu que o consultassem e que lhe receitassem algo para combater a doença que lhe ia paulatina e inexoravelmente entortando as articulações, e que lhe impedia os movimentos mais ligeiros, sem um ranger doloroso.
Não lhe disseram cara a cara, mas veio a saber que, no hospital, decidiram que não se justificava, do ponto de vista económico, atendendo à sua idade, e à crise que atravessamos, fazerem-lhe os dispendiosos tratamentos de que carecia. E que bem sabiam que não o curariam, apenas lhe aliviariam a doença…
Tinha sido belo quando era jovem. Agora, com as varetas enferrujadas, duas delas partidas e atadas com arames, o velho guarda-chuva jazia abandonado, forçadamente conformado, no estertor da vida, junto ao Ecoponto do hospital, à espera de ser levado para a lixeira…

Rui Felicio

quinta-feira, 28 de novembro de 2013


O Café Samambaia estava cheio. Os clientes habituais e mais a malta vinda de vários lados de Coimbra e do resto do País que se aprestava, sob a batuta do Rafael, para mais uma jornada de convivio esgotavam todos os lugares do espaçoso café. Lá dentro e cá fora na ampla esplanada, nenhuma mesa livre.

Aquela bela mulher, curvilínea, irrepreensivelmente vestida, desconhecida de todos, atraía os olhares dos homens, uns de forma disfarçada, outros de maneira ostensiva.
Caminhando por entre as mesas, a Marilia tentava descobrir, sem êxito, um lugar para se sentar. Fixou os olhos negros, amendoados, numa mesa, lá ao fundo onde se encontrava o Humberto sózinho, absorto na leitura do Diário de Coimbra.
- Desculpe-me estar a incomodá-lo, mas não consigo encontrar nenhuma mesa livre. Importa-se que me sente à sua?
O Humberto levantou os olhos do jornal, espantou-se pela beleza daquela mulher, puxou uma cadeira e convidou-a a sentar-se, indiferente aos sorrisos da malta que seguia a cena:
- Faça favor! Guardado está o bocado para quem o há-de comer!
A Marilia sorriu, sentou-se e agradeceu:
- É muito simpático. Reparei que foi o único homem que, educadamente, não me comeu com os olhos enquanto eu procurava lugar.
- Estava a ler, e enquanto se cava na vinha não se cava no bacelo, esclareceu o Humberto com um sorriso.
- Você, além de simpático, educado e atraente, é muito engraçado. Está sempre a citar provérbios, disse a Marília com uma gargalhada. E vê-se que é um homem polido e de boas maneiras.
- Polidez pouco custa e muito vale, respondeu-lhe o Humberto pousando delicadamente a mão na mão dela.
A Marília gostou daquele toque fugidio e carinhoso e retribuiu, pegando-lhe na mão e olhando-o melancolicamente.
O Humberto quebrou o silêncio:
- O que está feito, feito está...
- Como se chama? Gostaria de o conhecer melhor, atirou a Marilia...
- Humberto é o meu nome. Mas é pelo voo que se conhece a ave.
- Julgo que deviamos voar nas asas da fantasia, incentivou ela, sentindo as caricias que os dedos dele faziam nos seus.
O Humberto alongou-se na sua resposta:
- Barco parado não faz viagem. Podemos encontrar-nos logo à noite, se quiser...
- Hoje não posso. Mas podemos ver-nos amanhã, disse ela.
- Claro que sim. Há mais marés que marinheiros!
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No dia seguinte jantaram, à luz das velas, num restaurante do Parque Verde e apanharam um táxi para casa dela ali para os lados de Montes Claros.
Na sala, beberam um copo, dançaram ao som suave de uma música romântica, sob a ténue e cálida luz de um candeeiro de mesa e uma hora mais tarde beijavam-se sofregamente.

Já deitados, as caricias trocadas, o calor dos corpos nus, os sussurros, endoideciam a Marilia que, descontrolada, lhe pedia que fosse até ao fim.
O Humberto disse-lhe em voz rouca:
- Devagar se vai ao longe, minha querida.
... e, não te esqueças, que grão a grão enche a galinha o papo.
Mas a Marilia já não podia esperar mais e o Humberto, embora se esforçasse muito, não estava a conseguir.
Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo, justificou-se o Humberto, com alguma vergonha.
Ela fez tudo o que pôde para o ajudar mas ele derrapava, gemia, e nada!
Já irritada, ao fim de duas horas de esforços infrutíferos, gritou-lhe:
- Então?!
O Humberto, deixou-se cair para o lado, exausto, e só foi capaz de dizer:
- Roma e Pavia não se fizeram num dia!


 
Rui Felicio

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

HISTORIAS DO MEU BAIRRO

BENJAMIM
( Caça aos gambuzinos )

O Benjamim era aquilo a que se chamava “um verdadeiro marrão”.
Apareceu no Bairro, oriundo da Pampilhosa da Serra e hospedou-se em casa do Rui Mesquita, salvo erro , no ano em que foi caloiro de Direito.
Anos mais tarde viria a ser Juiz numa comarca da Beira Alta. Passava o tempo encafuado no seu quarto a estudar, donde saía à noite, apenas por breves minutos para ir ao café beber uma bica. Era de uma ingenuidade atroz e dela não se desemburrava pelo pouco convívio extra escolar que tinha connosco. Eu frequentava na altura o 2º ano da mesma Faculdade e, por isso, era dos poucos com quem ele conversava, durante as idas e vindas das aulas, normalmente para me pedir esclarecimentos sobre algumas matérias do curso, único tema com que verdadeiramente se preocupava.
Um dia porém, coisa pouco usual nele, abordou um assunto corriqueiro! Gostava muito de um casaco de cabedal que eu trazia vestido
- Onde o compraste? perguntou-me deveras interessado...
Não sabia se ele já tinha ouvido falar em gambuzinos e nas histórias por demais conhecidas que giravam em nome desse “animal” inexistente. Mas aproveitei-me e, meio a sério, meio a sorrir, tentei:
- Mandei-o fazer! Este casaco é feito de pele de gambuzino.
- Gambuzino?!! – Que é isso?, insistiu admirado o Benjamim.
Percebi que nunca tinha ouvido falar da “caça aos gambuzinos” deixando-me mão livre portanto para planear uma caçada.
Expliquei-lhe que é um animal muito raro, cuja pele, de excelente qualidade possibilita a confecção de vestuário como o meu casaco, de que ele tanto tinha gostado.
Se ele quisesse, poderíamos organizar uma caçada, mas adverti-o de que tudo se teria de passar no mais absoluto segredo, porque a caça ao gambuzino era proibida por lei, para proteger aquele animal em vias de extinção.
- E como é que a gente sabe onde e quando o encontrar? – inquiriu o Benjamim.
- Bom, é um animal que paira a meia altura e por isso não deixa pegadas. É muito desconfiado e sentindo a presença humana, abriga-se e protege-se em troncos ocos das árvores. – elucidei eu.
O Benjamim estava entusiasmadíssimo. Estranhava que na Pampilhosa da Serra nunca tenha ouvido falar em gambuzinos.
- Isso não é admirar, disse-lhe eu. - Só há duas ou três zonas restritas no País onde eles existem. Uma delas é exactamente entre a margem norte do Rio Mondego e o Bairro. Ou seja, no Pinhal de Marrocos e zonas circundantes.
Combinámos que nessa mesma noite eu organizaria uma caçada, recomendando-lhe mais uma vez segredo absoluto por causa da grave ilegalidade que isso representava.
Chegado ao café do Silva, combinei com o Vitor Salpicão, o Feliciano, o Calado e o Zeca Mestre e por volta da meia-noite fomos buscar o Benjamim a casa, partindo todos em direcção ao pinhal de Marrocos. Démos-lhe um saco de serapilheira e munimo-nos de paus e latas, instrumentos indispensáveis à caçada.
Logo ao fundo da Quinta das Flores, escolhemos uma oliveira com um tronco oco e dissemos em surdina ao Benjamim para ele colocar a boca do saco no buraco da oliveira.
- O gambuzino vai sair por aí. Quando ele entrar para dentro do saco, fecha-lo e pronto...- explicou-lhe um de nós com voz quase sussurrada.
- Nós vamos afugentá-lo fazendo barulho com os paus a bater nas latas, para ele entrar na toca da árvore, no caso de andar cá por fora.
- Certifica-te que o bocal do saco de serapilheira tapa completamente a toca da árvore ouviste? O gambuzino é muito esperto e se deixas uma abertura, por pequena que seja, ele escapa-se!Fomos batendo os paus e gradualmente fomo-nos afastando.
Sentámo-nos ao cimo da escadaria da R. Pedro Álvares Cabral, medindo o tempo que duraria a paciência do Benjamim.Enfim, podia ter sido pior... Mesmo assim, compreendido o logro, só o vimos subir a escadaria esbaforido e ameaçando-nos por volta das duas da manhã.

Rui Felício

terça-feira, 24 de setembro de 2013

METEORO

Corria o Natal de 1961, annus horribilis do Estado Novo, marcado pela perda de Goa uns dias antes, pela conspiração do quartel de Beja e pelos ataques dos angolanos em Luanda.
Os cientistas não tinham dúvidas!
A tenebrosa notícia era difundida ininterruptamente, entremeada com música clássica, pela televisão e pela rádio, fundamentada com cálculos matemáticos indiscutíveis. Salazar, com ar pungente, falou ao País, recomendando ao grande povo português que soubesse comportar-se com dignidade na hora da tragédia, porque a Pátria saberia renascer das cinzas, mesmo que ficasse orgulhosamente só no mundo, porque este era o castigo divino para aqueles que nos atacavam.
Um meteoro de enormes dimensões iria romper a atmosfera terrestre naquela noite. A energia do choque seria mais de um milhão de vezes superior à que libertara a bomba de Hiroshima! Sabia-se com exactidão o ponto onde ocorreria o impacto, perto do apeadeiro de São José, em Coimbra e era certa a destruição total do planeta Terra. Não havia forma de lhe escapar. Seria indiferente mudar de uma cidade para outra, de um país para outro. Era o apocalipse, o fim do mundo, tal como Nostradamus previra.
Interpretei o calor abafado que estranhamente me inundava o corpo naquela noite fria de Dezembro, como efeito da lenta aproximação incandescente do meteoro, depois da sua entrada elíptica nas altas camadas da atmosfera. A multidão em pânico olhava a bola luminosa que, a cada minuto, ia aumentando de diâmetro no breu da noite.

Ao meu lado, na rua, aquela bonita rapariga que eu só conhecia de uns fugazes encontros nos bailes do Clube Recreativo do Calhabé, tremia de medo sem saber o que fazer, tal como todos nós. Não havia mais do que um superficial conhecimento entre mim e a Ângela, por termos dançado duas ou três vezes, mas a aflição daquele momento aproximava-nos, impelia-nos um para o outro.
Olhámo-nos. Sem necessidade de quaisquer palavras, decidimos aproveitar os últimos momentos de vida. Beijámo-nos longamente, indiferentes aos gritos aterrorizados da multidão. À espera do fim próximo que o calor cada vez mais intenso prenunciava, queimando-nos os corpos, o beijo catalisava as profundezas de todos os sentidos...

Subitamente, acordei sobressaltado, exausto, com o coração a bater desenfreado. Espreitei pelas persianas do meu quarto, e em vez do imaginado cenário de destruição, vi o verde das árvores dos quintais do bairro e a calmaria de um bonito sol de inverno, rebrilhando no orvalho das plantas e das flores . Afinal tudo não passara de um sonho!
Vesti-me à pressa, corri à Fonte da Cheira e bati à porta da Ângela que a abriu sorridente, pegando-me delicadamente na mão. Por algum efeito telepático, também ela, como eu, tinha sonhado com o hipotético meteoro. Também ela tinha sentido o mesmo calor abrasador que eu senti...

Rui Felicio

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

EXÍLIOS



Não perdia uma oportunidade, mesmo que a despropósito, de elucidar os colegas, da sua ascendência aristocrática.
Na Herdade do Azinhal, perto de Portel, dizia-nos, as refeições eram pontualmente tomadas em redor de uma enorme mesa de castanho, no soturno salão do solar, sob a luz de brilhantes lustres, e com o reflexo de avantajados espelhos emoldurados em talha dourada.
O pai, Dom Pedro de Fermões e Cunha, num dos topos da mesa fazia sinal às criadas para começarem a servir, pela ordem hierárquica.
Primeiro a mãe, depois os cinco filhos de que Sá Cunha era o primogénito, a filha mais velha, o genro, a filha mais nova e três crianças que eram os netos que a primeira aportara para o seio do clã.
O ar severo do patriarca não perdoaria menor compostura ou o minimo atraso na chegada à mesa de jantar.
Ao raiar do dia de cada segunda-feira, postava-se ao cimo da escadaria de mármore do Solar e assistia atento à selecção feita pelo capataz, dos jornaleiros que ali se dirigiam na tentativa de serem contratados por uma semana. Normalmente, mais de metade eram recusados, ou por serem velhos, estarem doentes ou parecerem calões.
As regras estavam de antemão estabelecidas. Homens, vinte escudos por dia, mulheres quinze. O trabalho começava ao nascer do sol e acabava ao anoitecer, com duas horas de intervalo para comerem o farnel que cada um trazia de casa e para uma pequena sesta à sombra de um chaparro. O patrão, magnânimo dava o vinho e a água.
Sá Cunha, hospedado numa vivenda no Penedo da Saudade, onde morava um primo afastado, viera para Coimbra cursar Direito, depois de ter acabado o liceu no Colégio Nuno Álvares em Tomar onde esteve interno durante sete anos.
Tudo isto nos contava, com um indisfarçável pedantismo, tentando contudo conquistar-nos as simpatias, asseverando-nos que, apesar da sua ascendência aristocrática, era acérrimo defensor dos direitos dos proletários e que lutaria denodadamente ao lado daqueles que um dia haveriam de derrubar o iníquo regime em que viviamos.
Seis meses depois da incorporação militar em Mafra, desertou e foi viver para Lausanne, ocupando um challet de férias que o seu pai tinha adquirido uma dezena de anos antes. Vivia de uma mesada choruda que a familia lhe mandava para que ele não passasse dificuldades.
Reencontrei-o uns três meses depois do 25 de Abril, numa noite em que eu ia a caminhar na Rua do Coliseu e ouvi alguém chamar-me pelo nome. Virei-me e quase não o reconhecia. De barbas hirsutas, cabelo comprido, vestido com uma camisa grossa de flanela aos quadrados, umas desbotadas calças de ganga e um boné esverdeado com uma estrela na pala, nem parecia o Sá Cunha de fato e camisa branca irreprensivelmente engomada que conhecera em Coimbra.
Ia a entrar no Gambrinus, viu-me, chamou-me e insistiu para irmos lá comer uns lagostins.
Ainda lhe disse que o traje que ele envergava não condizia muito com a maneira de vestir da clientela do Gambrinus, mas retorquiu-me que agora o povo tinha sido libertado e podia aceder aos locais que mais lhe aprouvessem.
Encolhi os ombros, pensando com os meus botões, que o povo podia ser livre mas faltava-lhe o dinheiro para gastar na mais cara marisqueira de Lisboa.
Fiquei a saber que aderira ao MRPP e que em breve concluiria a licenciatura em Direito que interrompera em Coimbra. A Faculdade de Direito de Lisboa, explicou-me, estava democratizada e o MRPP dominava os postos-chave daquela escola, com exames sob fiscalização, controle e decisão final por elementos do Movimento.
Contou-me que desembarcou em Santa Apolónia uma semana depois do 25 de Abril. Como exilado político que era, que sofreu na carne o afastamento da sua Pátria, foi recebido de braços abertos no seio do movimento do proletariado, ocupando um lugar de destaque nos orgãos dirigentes.
Ainda o vi uma ou duas vezes na televisão, de punho cerrado, mas depois perdi-lhe o rasto.
Até que um dia, muitos anos depois, estava eu a olhar o mar, numa esplanada do Mónaco, a bebericar um Campari com laranja, e vejo um vulto a puxar uma cadeira, estender-me a mão sorridente e sentar-se à minha mesa.
Era o Sá Cunha, o mesmo aristocrático dandy do meu tempo de Coimbra, calças beije vincadas, sapatos castanhos brilhantes, um blazer de tweed azul escuro, camisa branca e um lenço de seda a envolver-lhe o pescoço por dentro do colarinho engomado.
- Que fazes aqui, perguntei-lhe, mais para entabular conversa do que porque nisso eu estivesse especialmente interessado.
- Olha pá, quando começaram as ocupações de terras, a Herdade do Azinhal foi transformada numa Unidade Colectiva de Produção. O meu pai morreu de velho e de desgosto.
Achei uma injustiça. Especialmente
pela ingratidão quanto à minha árdua luta pela revolução. Com a Lei Barreto, anos depois, conseguimos retomar a propriedade e receber uma indemnização.
Vendemos a Herdade por um bom dinheiro e com a parte que me coube resolvi vir viver para o Mónaco, onde apliquei o capital, cujos rendimentos são suficientes para ter uma vida sossegada.

Só me ocorreu dizer-lhe:

Fugiste do teu País, em protesto contra o Salazar.
Regressaste com a Revolução e voltaste a fugir do teu País, em protesto contra a Revolução.
Se, como sempre, o dinheiro que nunca precisaste de ganhar, não te vier a faltar, serás sempre um exilado.

Ou, como diria a minha avó, que confundia as palavras homófonas, serás sempre um “asilado”...


Rui Felicio

domingo, 8 de setembro de 2013

AS PEDRAS FALAM E AMAM



Por trás dela, como cenário de fundo de palco, uma enorme e grossa porta de castanho enegrecido pelo tempo, toda ouriçada de cravos de ferro pontiagudos como espinhos em lombo de dinossauro.A seus pés, sentados nos degraus da escadaria da Sé Velha, quatro homens de ar sisudo e compenetrado, envoltos em capas negras, extraiam das guitarras sons melancólicos, belos, arrepiantes, que as paredes das casas em frente devolviam chorosos, carregados de saudade.
Era a primeira vez que, na noite escura e naquele mesmo local por onde passaram os maiores nomes da canção académica, uma mulher cantava o fado de Coimbra, contra a opinião dos puristas da tradição, mas com o aplauso dos que entendem que a canção coimbrã deve evoluir e adaptar-se à sociedade estudantil actual, sem peias ou condicionalismos serôdios e ultrapassados pelo tempo.
O timbre cristalino da sua voz, a forma peculiar da interpretação, a beleza da sua elegante silhueta, enriqueceram a melodia, sem olvidar as vozes de antanho, antes melhorando-a.

Finda a serenata, os ecos das guitarras foram esmorecendo sob o pesado silêncio da noite e ela, no seu vestido negro a esvoaçar ao vento, despedindo-se dos artistas que a acompanharam, optou por se afastar sozinha em direcção à Baixa.
Descalçou-se e de pés nus e os sapatos de salto pendurados na mão, ainda com o peito a arfar de prazer pela romântica noite que acabara de viver, foi descendo pensativa a íngreme calçada do Quebra Costas.
Pisando as mesmas pedras frias por onde caminharam Menano, Goes, Bernardino, Zeca Afonso e tantos outros.

Estacou!
Pareceu-lhe ouvir um sussurro vindo das profundezas da calçada. Tensa, apurou os sentidos e, incrédula, ouviu este diálogo entre o calhau rolado, estranhamente mais tépido que os outros, e que o seu pé nu inexplicavelmente acariciava e o degrau de mármore da casa ao lado.

- Sou de rudes origens, nasci na Serra da Estrela e rolei na correnteza do Mondego até chegar a Coimbra onde me poli até ser colocado nesta calçada.
Por aqui passaram homens e mulheres insignes, ricos e pobres, sérios e desonestos, polícias e estudantes. Mas a nenhum deles jamais me afeiçoei.
Agora, porém, estou perdidamente apaixonado.
E tu meu caro mármore, como aqui vieste parar?

- Vim de Estremoz para embelezar os salões da Universidade, do Episcopado, dos Solares das familias burguesas.
Das sobras, fizeram-me degrau desta casa. Orgulho-me de conviver com a aristocracia, ao contrário de ti, pobre calhau rolado sem pergaminhos.
Mas nós as pedras não temos sentimentos. Não compreendo por isso, como dizes estar apaixonado! E por quem o estarias?”, perguntou-lhe trocista o mármore na sua frieza gélida.
O calhau rolado, ronronou, de coração palpitante, envolto num doce prazer e respondeu-lhe:
- Jamais, até hoje, tive a sensação da aveludada pele de um pé nu carinhoso e sensual a afagar-me, como agora mesmo o sinto.
O pé de uma bela mulher romântica, dona de uma voz incomparável, que ainda há pouco fez resvalar por estas pedras como água limpida e fresca, que só um frio e pedante mármore como tu não consegue sentir.
Sim estou apaixonado por esta jovem e esbelta mulher!

Rui Felicio

 

sábado, 7 de setembro de 2013

TRAGÉDIA


Depois de dias de intenso calor, o dia amanheceu cinzento.
Fraco mas persistente chuvisco matinal molhava a Ericeira...
Estava em casa de pantufas, sonolento, quando uma gritaria me fez vir à porta. Os cães não se calavam....
Era um alvoroço, um grande ruído, um estardalhaço. O barulho das sirenes aguçou a minha curiosidade humana.
Todo o ser humano é curioso, e mais doentiamente o fica quando ouve o buzinar estridente e arrepiante de sirenes...
Ao ouvi-las, toda a gente estica o pescoço, abre a boca de espanto, carrega o sobrolho e interroga-se sobre o que se passou.
E mesmo antes de o saberem todos conjecturam e deitam-se a adivinhar:
- Acho que morreram dois!
- A culpa foi daquele ali!
- Conduzem carregados de álcool, é o que dá!
- O INEM chega sempre tarde...
Quando olhei o espalhafato não foi muito diferente. Grande confusão por ali ia! Havia carros de bombeiros, da polícia, ambulâncias, gruas móveis e até um helicóptero...
Diviso quatro corpos, pernas e braços arrancados, duas cabeças que rolaram, rodas de carros, vários carros sem rodas...
Não conseguia perceber como tudo ali foi parar, como é que aconteceu aquele caos mesmo a dois passos da minha casa.
Havia adultos, crianças, destroços...
Mas pouco a pouco, sob as ordens de uma mulher com visível autoridade, aquela cena ia se desfazendo diante dos meus incrédulos olhos.
As personagens da tragédia estavam a ser retiradas, uma a uma.
Os carros, as gruas, duas ambulâncias e o helicóptero foram recolhidos, os corpos inteiros ou mutilados, todos aleatóriamente empilhados e misturados, como uma salada heterogénea.

Percebi finalmente que as causadoras daquilo tudo, eram duas meninas. Duas inocentes crianças...
Bastou aquela mulher lhes ordenar, para que a Sónia e a Marisa, moradoras na casa ao lado, desligassem as sirenes a pilhas e atirassem de rosto franzido, os carros, as cabeças e braços dos bonecos, tudo para dentro do enorme balde de plástico onde costumam guardar os seus brinquedos.

Era a sua mãe que lhes mandou pararem com a brincadeira e com o chinfrim...

Rui Felicio

terça-feira, 3 de setembro de 2013

NA ALDEIA...

 
A noite caiu, ainda a Ti Amélia Pataqueira, antes de regressar a casa, arrumava a enxada no pequeno casebre de madeira onde guardou os apetrechos com que tinha estado todo o dia a amanhar a horta da pequena leira que possuía, paredes meias com o cemitério das Torres do Mondego.
Correu o ferrolho e deu a volta à enorme chave, que rangeu no buraco da fechadura ferrugenta. De todas as vezes se lhe arrepiava a pele quando ouvia aquele som a cortar o silêncio do local, como se receasse acordar os mortos do outro lado do muro. Encaminhou-se para a azinhaga íngreme de calhau rolado, polido pelos anos, em direcção à aldeia, lá em baixo. Passou em frente ao portão do cemitério, encimado por dois enormes anjos de pedra ali postados como sentinelas e guardiões do campo sagrado onde jaziam aqueles que a morte já tinha levado e que ela bem conhecera em vida.
Benzeu-se,  arremedou uma rápida genuflexão, olhou de soslaio as silhuetas das campas que o portão de ferro forjado e a claridade das estrelas deixavam entrever e aprestou-se para começar a descer a ladeira.De súbito estacou, tensa, rígida, as mãos enclavinhadas no cesto de verga onde transportara o farnel, com o coração em cavas, rápidas e violentas batidas. De dentro do cemitério, tinha ouvido um som esfusiante, parecido com o barulho do gasómetro da sua casa, quando lhe chegava o fósforo para o acender.
Virou a cabeça e viu uma luz azulada a subir da campa do Ti Zé França, que falecera há pouco mais de um mês.Desatou a correr pela quelha abaixo, gemendo de medo. Quando olhava para trás, via aquela luz azulada, aquele fantasma que a perseguia.
Já cá em baixo, entrou de rompante na taberna do Zé Brasileiro, onde alguns homens da aldeia jogavam às cartas em redor de uma carcomida mesa de madeira.
Aos olhos apavorados da Ti Amélia, e à sua respiração ofegante, corresponderam os homens da taberna com um pesado e inquisitivo silêncio.
Recobrado o fôlego, tartamudeou que a alma do Zé França vinha atrás dela!  
   
A Ti Amélia Pataqueira nunca tinha ouvido falar de fogos fátuos. Muito menos imaginava que são provocados pelos gases provenientes da decomposição da matéria orgânica que entram em combustão quando em contacto com o oxigénio do ar.
Nem tão pouco sabia que a deslocação do ar que a sua louca correria provocara, arrastara atrás de si a chama dessa combustão.
 
Rui Felício

terça-feira, 27 de agosto de 2013

EQUÍVOCO


As pontas dos lençóis arrastavam pelo chão em desalinho, a fronha da almofada ao seu lado ainda continha a concavidade da cabeça do Paulo. E até o seu cheiro suave, característico.
Fitando o tecto, saciada e feliz, ela sentia ainda, no lençol debaixo da sua perna dobrada, a humidade e o calor dos suores dos corpos.
A Beatriz era uma mulher madura, mas os anos não lhe tinham destruído a beleza e a fogosidade. Sentia-se ainda suficientemente atractiva aos olhos dos homens. Mesmo quando tinham menos vinte anos do que ela, como era o caso do Paulo.
Ele já tinha saído há umas duas horas, mas ela mantinha-se deitada. Não lhe apetecia sair da cama, queria prolongar o prazer daquela madrugada de sonho, reviver tudo, semicerrar os olhos e visualizar por entre a névoa da fantasia o seu rosto atraente, o seu corpo viril, o seu abraço carinhoso.

De súbito, a campainha tocou.
Esperou que a Natália, a sua enteada fosse abrir.
A
campainha retiniu com maior insistência. Ninguém fora abrir a porta.

A Natália já deve ter saído, pensou a Beatriz.
Contrariada, despertou da letargia em que se encontrava, enfiou à pressa a camisa de noite e estugou o passo até à porta.
Abriu, perscrutou com o olhar para um lado e para o outro, mas já não estava lá ninguém.
Já ia fechar a porta quando reparou, no chão, ao lado, um belo ramo de rosas com um cartão.
Sentiu o coração bater desordenadamente, cheia de felicidade, pela delicadeza do Paulo ao oferecer-lhe, em sinal de amor, aquele magnifico ramo de flores.
Pegou no cartão perfumado que as acompanhava e leu:

“Para a Natália, grande amor da minha vida, com mil beijos do Paulo.”
Rui Felicio

sexta-feira, 26 de julho de 2013

NO DIA DOS AVÓS...


Desde sempre, a sabedoria dos avós sacia a curiosidade dos netos.
Desde sempre, a imaginação e a utopia dos netos renova e actualiza a experiência dos avós.
Sempre assim foi.
Sempre assim será.

Corria o ano de 2165...


O neto João olhava atentamente o seu sábio avô. A sua curiosidade, como a de todos os jovens, não conhecia limites.
As perguntas atropelavam-se umas às outras.
O velho, pacientemente, ia sintetizando o fulcro da curiosidade juvenil, respondendo-lhe de forma pausada e segura.

 -Sabes João, eles não davam nenhum valor à vida, matavam-se uns aos outros por coisas que nunca conseguimos perceber.
Não sei de onde vieram e acho que ninguém sabe.
Antes deles, muito antes, já nós por cá andávamos...
Eram uma praga, disso não há dúvidas. Não respeitavam nada nem ninguém consideravam-se uma raça superior, desprezavam displicentemente as equilibradas leis da Natureza.
Um dia, criaram um poderoso vírus com o objectivo de o usarem para dominar o mundo, eliminando os seus inimigos.
Disseminaram-no e nem se aperceberam que a própria arma era tão letal e rápida, que os dizimou a todos. Incluindo os seus próprios inventores!

O neto não compreendia porque é que esse vírus que matou essa tal raça, não os afectou a eles também, que ali estavam calmamente a conversar, e nem a nenhum dos outros seus familiares espalhados pelo mundo.

O avô explicou ao neto que aquela raça idiota e arrogante, contrariando a Natureza , se esqueceu que esta tem as suas regras e as suas defesas.
A Natureza protegeu todos aqueles que não pertenciam à tal raça hedionda, criando anti-corpos que repeliam o vírus, protegendo-os...

O João, macaquinho simpático, fitou o velho símio acocorado à sua frente no meio da floresta, e perguntou-lhe:
- Que raça era essa avô?
- A raça humana, completamente extinta... – respondeu o velho símio
    
 
 Rui Felicio

quinta-feira, 25 de julho de 2013

AS PRIMEIRAS LETRAS

 
 
Ia entrar para a primeira classe em Outubro seguinte. Mas desde há uns meses que o meu pai se servia da cartilha maternal de João de Deus, para me ir ensinando as primeiras letras. Como muitos estarão recordados, este método consistia em ensinar às crianças as sonoridades dos fonemas, a importância e a intensidade tónica das vogais na formação das palavras.Começava por inserir na mente do aprendiz a correspondência dos sons com a palavra escrita.Decompunha os vocábulos em sílabas e o professor atraía a atenção da criança pronunciando a sonoridade do fonema ao mesmo tempo que apontava para as letras desenhadas na cartilha e que formavam a sílaba.Desta forma, o aluno aprendia a relacionar o som que o professor executava, com o desenho das letras que lhe correspondiam e que ele apontava.
Mesmo sem ter ido ainda à escola, já conseguia “ler” quase todas as palavras mais simples, embora em muitas delas lhes desconhecesse o verdadeiro significado.
Naquele início de Setembro íamos, a minha mãe, o meu pai e eu, acompanhados por uma grande quantidade de trouxas, malas e maletas, a caminho da Figueira da Foz passar a habitual primeira quinzena de férias numa casa alugada a uma família de pescadores na Ponte do Galante. Era uma aventura inesquecível aquela viagem de combóio que apanhávamos na Estação Velha, depois de o Adelino, nosso vizinho, nos ter até lá transportado no seu táxi, um Citroen arrastadeira que eu considerava um luxo.
Encantavam-me as portas todas a abrirem-se em cada apeadeiro, o silvo da locomotiva, o fumo da fornalha misturado com o vapor da caldeira, os bancos de ripas envernizadas, a fuligem a entrar pelas janelas abertas tisnando-nos a pele mesmo antes de a tostarmos ao sol da praia. Deliciava-me com a azáfama dos passageiros a entrar e a sair nas sucessivas estações onde a cada passo parávamos: Bencanta, Espadaneira, Formoselha e o fim da primeira grande etapa em Alfarelos. O combóio, ali, quedava-se uma boa meia hora para aguardar pelo transbordo de quem vinha de Lisboa com igual destino da cosmopolita praia da Figueira. De rodilha à cabeça, carregadas com um grande alguidar de zinco, várias mulheres cirandavam numa roda viva pela gare da estação, apregoando água fresquinha em pequenas bilhas de barro. Com um prolongado apito o Chefe da Estação dava o sinal da partida. Ouvia-se o ranger de ferros, os corpos dançavam com os solavancos das carruagens a esticarem as engrenagens que as ligavam entre si, as rodas da locomotiva patinavam nos carris luzidios e finalmente o comboio começava a ganhar lentamente velocidade.
Com a entrada de passageiros vindos do sul, a carruagem ficou à pinha. Observava em silêncio a paisagem do Vale do Mondego que ia deslizando lentamente do lado de fora, com as longas várzeas polvilhadas aqui e ali por pequenas casas que pareciam boiar na água. Passámos Verride e depois a bifurcação de Lares e o meu pai procurou explicar-me que os comboios que iam para Lisboa se desviavam ali, apontando-me a linha que ficava à nossa esquerda.
Mais à frente, na Fontela, observei o edifício da estação enquanto o comboio ali esteve parado. Lembrei-me dos ensinamentos da cartilha de João de Deus e soletrei, compenetrado, alto e bom som, as três sílabas que alguém tinha escrito a carvão em letras gordas na parede branca, por cima dos azulejos. Desconhecia-lhe o significado, mas o importante era mostrar que já sabia ler.
Antes que alguém reagisse, repeti orgulhoso a sonora palavra, mais uma ou duas vezes, martelando as silabas e apontando o dedo para a parede da estação. Depois de uns instantes de silêncio e perplexidade, os passageiros que seguiam na carruagem voltaram-se para mim. Uns, circunspectos, abanavam a cabeça, a maioria ria-se às gargalhadas.
A minha mãe chamou-me malcriado. O meu pai disse-me ao ouvido para me calar porque essa palavra era uma asneira.
Mas ninguém me explicou mais nada…
Rui Felicio

sexta-feira, 12 de julho de 2013

TARDE INESQUECÍVEL

      
Como estava combinado, ela foi ter com ele...
Às três da tarde entrou, começou a ficar ansiosa, o coração palpitava mais forte, o sangue rosava-lhe as faces...Enquanto esperava, meio deitada, meio sentada, as mãos dela suavam, as pernas tremiam-lhe, o corpo estremecia-lhe, deixava-a de lábios abertos, sorvendo o ar que lhe faltava, quase sem conseguir respirar.
Quando ele se aproximou e a envolveu, sentiu o bafo quente da sua respiração, olharam-se nos olhos, e ela ficou subitamente tensa, imóvel, com a cabeça revolta por um turbilhão de pensamentos, de medos, de vontades...
A pouco e pouco foi desistindo de resistir e entregou-se nas mãos dele.
Delicada mas firmemente ele envolve-a, invade-a, explora-a e vai-lhe pedindo que nada receie, porque será carinhoso e cuidadoso...
Mesmo assim, ela deixa escapar de vez quando um suave gemido, menos de dor, mais de ansiedade...
Quando ele termina, a paz relaxante fá-la descontrair, o coração gradualmente aquieta-se e minutos depois, recupera o fôlego e levanta-se ainda cambaleante.
Despedem-se, ele abre-lhe a porta, ela sorri-lhe e sai...
Pelo caminho até sua casa ela não consegue deixar de pensar naquela hora de suprema tensão, ainda sente na boca o gosto daqueles momentos inesquecíveis e à noite, deitada sozinha na sua cama, as insónias não lhe permitem tirar da cabeça aquela hora passada na cadeira do dentista.
Rui Felício

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O RISO DOS PEIXES


Há uns bons trinta anos atrás, o meu primo Tonecas começou a desafiar-me para eu passar a ir com ele à pesca. Fazia-lhe companhia e justificava as suas saídas junto da Laura, sua mulher... Lá ia recusando com um irrefutável argumento. É que eu nunca na vida tinha sido pescador. Desconhecia as técnicas e quais os apetrechos necessários. Porém, perante as repetidas insistências, um dia fui a uma das lojas do Cais do Sodré, e equipei-me a preceito. Comprei uma cana telescópica, um bom e belo carreto dourado, anzóis de vários tamanhos, chumbadas, bóias, bornal, tesoura, pano de linho, balde para o peixe, caixa de plástico para acondicionar os instrumentos, mapa de marés, apoio de ferro para a cana, etc, etc.. Dei uma especial atenção ao vestuário. Um bonito colete com bolsos de caqui, umas botas com polainas, um boné... Experimentei tudo em casa. Mirei-me ao espelho e estava com aspecto de um verdadeiro profissional de pesca. No sábado a seguir , levantei-me cedo e decidi ir sozinho experimentar e treinar, para na semana seguinte não fazer má figura junto do meu primo. Passei pelo Cais do Sodré e comprei quatro pacotes de minhocas, embrulhadas em papel de jornal. Escolhi a praia da Torre. Era cómodo o acesso. Bastava parar o carro e descer umas escadas para a areia.
Carregado com os apetrechos, impecavelmente vestido à pescador, dirigi-me para a beira mar. Já ali se encontrava uma dezena de pescadores espaçados a intervalos de mais ou menos dez metros, alinhados paralelamente à linha de água que em pequenas ondas rebentava na areia. Coloquei-me à esquerda deles, pousei o bornal, aparelhei a cana, meti duas minhocas gordas nos anzóis e, disfarçadamente, observava os olhares de admiração dos meus parceiros desconhecidos. Notava-se neles um certo ar de respeito pela qualidade do meu equipamento. Levantei a cana, puxei-a bem atrás das costas e fiz como tantas vezes já tinha visto fazer a outros pescadores... Dei-lhe um forte impulso e balancei-a para a frente, largando a certa altura o fio de nylon que tinha prendido com o dedo, tal como me tinham ensinado. Ao desprender o fio, tinham me dito, o peso da chumbada fazia com que ela fosse projectada a grande distância indo cair no mar à nossa frente... Depois era esperar com paciência que o peixe picasse e, nesse caso, rodar o carreto para enrolar a linha e arrastar a presa até junto de nós.
Não esperei muito. Vi a ponta da cana dobrar-se e disse para comigo que era a sorte de principiante. Já tinha fisgado um peixe, pensei eu! Nervoso, comecei a rodar a manivela do carreto. Quanto mais rodava, maior resistência sentia. Não havia dúvidas, trazia peixe! E devia ser dos grandes, dada a enorme força que eu sentia à medida que enrolava a linha. Apercebi-me do burburinho que em crescendo começava a escutar do meu lado direito. Olhei e percebi tudo. Ao lançar a linha, devo ter soltado o dedo do fio de nylon antes de tempo e, em consequência, a chumbada não despoletou para a minha frente, mas sim para o meu lado direito indo alojar-se lá longe no areal à direita dos outros pescadores.
Quando comecei a enrolar a linha fui arrastando, sem o saber, uma a uma, as linhas das canas dos outros pescadores que estavam espetadas na areia... Ou seja, fui ensarilhando num novelo cada vez mais complexo as dez linhas à minha direita, juntamente com a minha. Começaram a insultar-me, com ar ameaçador... Vendo o caso mal parado, peguei na tesoura, cortei a linha da minha cana, peguei na trouxa e estuguei o passo em direcção ao carro.... Meti tudo no porta bagagens e olhei de longe, entre receoso e divertido, a azáfama dos pescadores a tentarem desensarilhar o novelo... Entrei no carro e desapareci antes que algo me pudesse acontecer... Passada uma semana, o meu carro tresandava a podre. Tinha me esquecido das minhocas no porta bagagens durante todos aqueles dias...

Rui Felício

terça-feira, 25 de junho de 2013

TIMIDEZ EM COIMBRA


Viam-se todas as manhãs...
Ele, segurando uma pasta de cabedal, a descer a Av. Sá da Bandeira em direcção à baixa e ela, carteira a tiracolo, a subir a caminho da Praça da República.
O Carlos Marques, elegante, aprumado, bem vestido, era um jovem alto, bonito, bem parecido. Tinha acabado o curso de Direito há um ano, estagiando agora num escritório de advogados da Rua Ferreira Borges. Fazia-o apenas para ganhar tarimba, porque aguardava resposta a um requerimento que fez para ingressar num serviço público adequado à sua formação jurídica, porque era aí que desejava fazer carreira, longe dos holofotes de teatro que considerava ser uma sala de audiências de um tribunal.
Sofria de uma profunda e agoniante timidez, que o fizera passar obscuro pelos bancos da faculdade, fechado em casa às voltas com os livros, longe das folias e da boémia coimbrã. Achava que essa forma de ser o desaconselhava de abraçar a advocacia, profissão para a qual, segundo pensava, não estaria talhado.

A Marilia, moça de olhos vivos, cheia de vida e sorriso cativante, olhava aquele belo rapaz ainda ele vinha longe, sempre à espera de um gesto seu, de um sorriso, algo que lhe mostrasse que também ele reparava nela.
Sentia-se atraída pela sua esbelta figura e estaria pronta a aprofundar o conhecimento com ele, talvez um relacionamento, um namoro até, mas os dias sucediam-se e nada da parte dele o proporcionava.
Por vezes os olhares encontravam-se, mas quando assim sucedia ele desviava propositadamente os olhos, parecendo envergonhado, incomodado, como se tivesse sido apanhado em flagrante delito.

O que a Marilia não sonhava é que o Carlos estava perdidamente apaixonado por ela e que só a timidez e a insegurança o impediam de o manifestar.
Uma noite, na solidão do seu quarto alugado na Rua Tenente Valadim, o Carlos encheu-se de coragem e decidiu escrever um bilhete que de manhã lhe entregaria quando passasse por ela.
Na manhã seguinte, afrouxou o passo sem parar, deu-lhe o papelinho, dobrado em quatro, quase sem olhar para ela e prosseguiu a marcha cabisbaixo, já intimamente arrependido de o ter feito.

Surpreendida a Marilia, desdobrou a bilhete e leu as palavras cuidadosamente desenhadas. Era uma frase simples, mas agradavelmente reveladora: “Gosto muito de si. Desculpe!.”
Olhou para trás mas ele já ia longe. Nem sequer sabia o seu nome, nem onde trabalhava, nada! Especada, ficou a vê-lo desaparecer na curva da Escola Avelar Brotero.
No dia seguinte, a Marilia esperou por ele nas escadas do Teatro Avenida, firmemente disposta a enfrentá-lo.
Quando ele se aproximou, colocou-se ostensivamente à sua frente barrando-lhe o caminho e disse-lhe com um sorriso:
- Obrigada pelo seu bilhetinho de ontem. Quero que saiba que também gosto de si.
Pareceu-lhe ver um ligeiro rubor na face quando ele se atreveu a dizer-lhe:
- Gostava que pudessemos encontrar-nos para nos conhecermos e conversarmos.
- Também gostaria muito, respondeu-lhe a Marilia, mas infelizmente, ainda esta noite, vou para as Termas de São Pedro do Sul e ficarei por lá durante um mês. O meu pai todos anos lá vai fazer tratamento a uma doença de varizes que o apoquenta.
- Combinaremos então quando regressar, se estiver de acordo, propôs-lhe o Carlos, pesaroso, mas esperançado.
- Está bem, respondeu a Marilia. Até daqui a um mês então...
E seguiram cada um para o seu destino. Na atrapalhação do momento, nem ao menos se lembraram de perguntar um ao outro como se chamavam.
--------------
Uns dias depois o Carlos Marques recebeu um oficio do Ministério do Interior, a comunicar-lhe a sua admissão ao serviço a que concorrera.Era uma boa noticia!
Entretanto, em São Pedro do Sul, a Marilia encontrou um antigo colega de escola que não via desde há muitos anos.
Era o Tibúrcio, agora médico a trabalhar nas Termas.
Todos os dias se encontravam e rapidamente a Marilia esqueceu o tal rapaz de Coimbra. Começaram a namorar.
Não era um namoro de férias.
Estavam verdadeiramente apaixonados, a tal ponto que decidiram casar-se o mais brevemente possivel.
Afinal já se conheciam desde crianças e não tinham quaisquer dúvidas sobre a firmeza do seu amor.

O Carlos é que, já no seu novo trabalho, não conseguia deixar de pensar na sua amada.
Contava os dias para o regresso dela a Coimbra, para a ver, para lhe confessar o delirio da sua paixão, já imaginando deleitado os beijos que um dia trocariam quando começassem a namorar.
Vivia ansioso, de coração apertado pela paixão quase doentia que o acometera.
Mas o mês passou, os dias e as semanas foram correndo, e a Marilia nunca mais apareceu pela Av. Sá da Bandeira.
E ele penalizava-se por, estúpidamente, nem sequer lhe ter pedido a morada.
Agora, não fazia a minima ideia de como a encontrar, de como a procurar.


Mal adivinhava o Carlos que ela deixara o emprego e por isso nunca mais passara na avenida como antes. Andava atarefada a tratar dos preparativos para o casamento com o Tibúrcio.

A data foi aprazada, trataram da papelada e, finalmente, no dia da cerimónia, a Marilia e o Tibúrcio foram à Conservatória do Registo Civil para celebrarem o casamento.
Nervosos e irradiando felicidade, os noivos, as testemunhas, os convidados e familiares, entraram no salão de actos da Conservatória.
Esperaram uns minutos e a funcionária informou-os que o Dr. Carlos Marques, Adjunto do Conservador, estava quase a chegar e que seria ele a celebrar o matrimónio.






Rui Felicio

segunda-feira, 17 de junho de 2013

DISCURSO À ESTÁTUA





Em resposta ao desafio do Carlos Viana...
 
 

Salvé Doutor Joaquim António de Aguiar, estrénuo defensor do cartismo e conimbricense de gema galada!

Foi com estas palavras que me dirigi à estátua, estendendo o braço numa saudação romana, a capa traçada à tricana, um capacete de cartolina e uma espada de madeira, sob o olhar protector do Zé Maria, fitado de Direito que se formou aos 35 anos de idade depois ter andado por Coimbra mais de quinze, que me tinha mobilizado para o acompanhar na Latada e de quem fiquei amigo para o resto da vida.
Era a minha sina como caloiro naquele ano distante de 1963, a que me submetia. Lembro-me de estarem em volta a assistir, entre muitos outros, o Lucas Pires, o Vital Moreira, o Fernando Torres, o Carlos Encarnação, este último também caloiro como eu.
Visto à distância, este quadro parecia uma premonição do variado leque politico parlamentar que compuseram anos mais tarde.
É curioso que sendo eu verdadeiramente um tímido, nestas teatrices a voz e o gesto soltavam-se-me como se num palco estivesse plantado.


E prossegui com gestos largos e voz pausada:

Sei que petrificado como está, a sua voz não será audivel ao comum dos mortais.
O que não acontece comigo porque, embora sendo mortal não sou comum e tenho o dom de assimilar mensagens telepáticas.
Consigo portanto ouvir perfeitamente as suas sábias palavras e ensinamentos que terei a maior honra em transmitir à douta e ilustre plateia que me rodeia, ávida de enriquecer os seus já vastos conhecimentos adquiridos na mesma prestigiosa Universidade onde Vossa Excelência estudou e leccionou há mais de um século atrás.
E as três questões mais obscuras na mente dos nóveis doutores aqui presentes, que me encarregaram desta missão, às quais humildemente lhe requeiro a
bondade de os esclarecer, são as seguintes:

A primeira é a de saber porque alcunharam V. Exª com o pejorativo epíteto de Mata-Frades.

 

A segunda é a de nos revelar o que escreve e porque escreve na folha de papel que a sua mão esquerda segura.
E a terceira e última é a de nos poder esclarecer como consegue escrever algo, se não se vislumbra qualquer tinteiro onde possa molhar o aparo da pena que a sua mão direita sustenta.
Suspendi a interpelação, pedi silêncio e de ouvido a escuta e os olhos no infinito, fingi aguardar pela resposta da estátua.
Voltei-me de costas para a estátua e transmiti aos presentes as respostas que telepáticamente tinha recebido:

O insigne Doutor de Leis aqui há longos anos ao frio, ao sol e à chuva transmite aos ilustres circunstantes e em resposta ao por mim questionado, o seguinte:

Que foi injustamente alcunhado de Mata-Frades, por ter feito aprovar uma lei anti-clerical que nacionalizava os bens das ordens religiosas, porque em seu entender essa riqueza era necessária à Fazenda Nacional para suprir graves carências públicas.
Fez questão de esclarecer que ficaram de fora as ordens religiosas femininas e que por isso não lhe chamaram também o Mata-Freiras.

Quanto à segunda questão, O Doutor Aguiar informa-nos que o papel que tem na mão serve para anotar os nomes dos infractores às posturas municipais, designadamente a do Presidente Dr. Moura Relvas, que instituiu uma multa às vendedeiras dos arrabaldes que entrassem descalças na cidade.

Relativamente à terceira e última dúvida suscitada por mim, fungou e disse-me para olhar bem. A pena que tinha na mão direita era de tinta permanente, pelo que não precisava de tinteiro. E que, se precisasse, tinha a aquiescência do Director do Banco de Portugal, ali ao lado, para a molhar no tinteiro dele...



Rui Felicio

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CIRCULAÇÃO MONETÁRIA



Era conhecido no bairro onde morava, como um simpático estoira-vergas, sempre envolvido em noitadas com muito álcool, discotecas, mulheres, patuscadas...
A meio do mês já costumava ter o dinheiro do ordenado totalmente espatifado, mas a Dona Gertrudes, sua mulher, ia segurando as pontas do orçamento familiar com os proventos que amealhava com os trabalhos de modista bem afreguesada que, de manhã à noite, ia executando em casa.
Mas depois de o Adrião Monteiro ter caido no desemprego e, especialmente, quando se esgotou o periodo em que andou a receber o magro subsidio, as coisas complicaram-se.
A Gertrudes trabalhava cada vez mais, mas, felizmente, tinha conseguido arranjar uma boa cliente, uma senhora que lhe encomendava belos vestidos.
Via-se que era uma senhora fina e que lhe pagava pontualmente o trabalho.
O Adrião, apesar das dificuldades financeiras, continuava a fazer o mesmo tipo de vida que fazia antes.
Andava até enrolado com a Carmen, uma espanhola de Málaga que há tempos conhecera numa boite de alterne dos arredores.
Estava-lhe na massa do sangue!

Passava as tardes fora de casa, prolongando muitas vezes as ausências pela noite dentro, sempre à custa dos dinheiros que pedia à Gertrudes que, condoída, achava que ele precisava de espairecer.
- Meu amor, custa-me tanto ter que te pedir, mas não me consegues arranjar cem euros?, perguntou, naquela manhã, o Adrião à mulher, enquanto lhe afagava o cabelo com carinho.
A Gertrudes virou para ele os olhos cansados, desfez-se da agulha e da linha com que costurava, sorriu-lhe e retribuiu o afago acariciando-lhe a mão.
Levantou-se e foi ao quarto onde tinha guardada uma nota de cem euros num pequeno guarda jóias de louça.
Desdobrou-a e reparou que alguém tinha escrito num canto, os dizeres:
“Nunca mais voltarás à minha mão”
Achou graça e escreveu a lápis, por baixo dos tais dizeres:
“Nem à minha!”
Voltou à sala e entregou-a ao marido que, refastelado no sofá, seguia atento o Big Brother.
- Obrigado meu amor. És uma querida, disse o Adrião, levantando-se e dando-lhe um beijo fugaz na face, metendo, apressado, a nota no bolso.
Dirigiu-se ao haal, mirou-se ao espelho dando um toque na madeixa de
cabelo que lhe descaía para a testa e, antes de sair, ainda afivelou um ar pesaroso e perguntou à mulher:
- Se calhar este dinheiro faz-te falta, meu amor...
- Não te preocupes, querido. Hoje vou receber cem euros do vestido que fiz para aquela senhora fina de que te falei e que ultimamente me tem encomendado muitos trabalhos.
O Adrião saiu, mais descansado, e foi à sua vida.

Ao fim da tarde voltou, beijou a Gertrudes ainda agarrada à máquina de costura e sentou-se no sofá.
- Olha meu querido, já cá veio a tal cliente e pagou-me os cem euros do vestido, disse a Gertrudes, sorridente abanando a nota que tinha recebido.
Ao fazê-lo, reparou que, tal como a outra, tinha uns dizeres escritos por alguém.
Olhou melhor e nem queria acreditar!
A nota era a mesma, não havia dúvidas. Lá estava no canto, a lápis, com a sua caligrafia:
“Nem à minha!”
- Pode lá ser? Ripostou o Adrião, com o coração descompassado...
E em voz quase inaudível:
- Como é que se chama essa tua cliente?
- É a D.Carmen, respondeu pausadamente a Gertrudes...
Porquê, conhece-la?
- Eu? Não, nunca a vi, articulou a custo o Adrião.

                                                           EPÍLOGO
A D. Gertrudes divorciou-se e hoje é uma empresária de sucesso. Ficou com um hábito para o resto da vida. Não há nota que lhe passe pela mão que não lhe escreva uma marca identificativa...

Rui Felicio


terça-feira, 11 de junho de 2013

A ESCRITA É UMA ARMA


Solteiro, sem filhos nem familia, o Baptista tinha dedicado toda a sua vida à escrita. Era redactor da Gazeta de Penacova, onde elaborava as noticias e mantinha uma crónica semanal sobre a vila e o País.
Mas a crise foi aumentando as dificuldades financeiras da Gazeta, a publicidade definhava, as assinaturas diminuiram drásticamente e o proprietário e director teve de o chamar para lhe dizer que não tinha condições para lhe continuar a pagar o ordenado.
Perdido o emprego e único meio de subsistência, o Baptista mandou o curriculum para todos os jornais da região. As respostas recebidas, transmitiam-lhe o reconhecimento das suas invulgares qualidades de jornalista, mas argumentavam que a crise os tinha abalado a todos.
Lembrou-se de recorrer ao Gaspar, seu antigo colega de escola, e que era uma próspero comerciante de materiais de construção a quem a crise parecia não ter afligido, pedindo-lhe emprego na sua loja.
O Gaspar torceu o nariz, abanou a cabeça com fingido desalento e disse-lhe que os negócios tinham decaído muito e que não lhe poderia arranjar emprego.
Mas podia arranjar-lhe umas coroas se ele escrevesse uma carta para ser publicada na Gazeta, a desancar no João Caldeira, seu rival e concorrente. O Gaspar dar-lhe-ia os tópicos e o Baptista com a sua habilidade haveria de escrever a carta sem recorrer ao insulto nem à calúnia para que o Caldeira não tivesse pretexto para o accionar judicialmentos.
O Baptista ainda tentou recusar, dado que era amigo dos dois, mas perante o aceno de uma nota de cem euros que o Gaspar lhe mostrou para remuneração do trabalho, não resistiu. Precisava do dinheiro como de pão para a boca, para pagar a pensão onde vivia hospedado há longos anos.
 

Ao fim do dia levou o rascunho ao Gaspar que, depois de ler, exclamou:
- Formidável! Está exactamente como eu queria. Vou passá-la a limpo e enviá-la ainda hoje para o jornal!
Na manhã seguinte, bebericando na pensão a xicara de café com leite, o Baptista folheou a Gazeta de Penacova. Lá estava a toda a largura da página 3, a carta com a assinatura do Gaspar a dizer cobras e lagartos do Caldeira.
Nisto, entra na pensão um rapazote que lhe vinha entregar um bilhetinho manuscrito pelo Caldeira, pedindo-lhe que fosse imediatamente à sua loja. Precisava de falar com ele urgentemente.
O Baptista sentiu um baque no coração. Se calhar a sua forma de escrever atraiçoara-o e agora tinha de se haver com o brutamontes do Caldeira que certamente já tinha descoberto que a autoria da carta era sua.
Ainda disse ao rapaz que mais logo ia falar com o seu patrão, mas o emissário esclareceu que o Sr.Caldeira o mandou não sair dali sem levar consigo o Sr. Baptista.
Preocupado, a imaginar que desculpas havia de dar, lá foi.
O Caldeira mandou-o entrar para o cubiculo nas traseiras da loja, encimado por um pomposo letreiro a dizer “Gabinete da Administração”.
Furioso, abanando o jornal enrolado ao pé da cara do cabisbaixo Baptista, o Caldeira vociferou:
- Já leste a Gazeta de hoje?
- Não, ainda não, mentiu o Baptista...
- Pois então lê o que essa cavalgadura do Gaspar escreveu sobra a minha honrada pessoa!
O jornalista fingiu ler e no firal só lhe ocorreu dizer:
- Ele mal sabe escrever, amigo Caldeira. Não creio que tenha escrito isto.
- Pouco me importa! Assinou-a!
E, suavizando a voz, deu uma amigável palmada nas costas do Baptista e pediu-lhe:
- O gajo não pode ficar sem resposta. Tens que me escrever uma carta a dizer ao Gaspar com quantos paus se faz uma canoa! Com cuidado, usando as palavras que tu sabes escolher melhor do que ninguém, de maneira a enxovalhá-lo com diplomacia, sem asneiredo, sem insultos, senão o gajo ainda me processa.
- Oh amigo Caldeira, não posso. Sou amigo dele como sabes...
O Caldeira deu-lhe um sobrescrito e intimou-o:
- Abre, esse dinheiro é teu. Sei que estás desempregado e há-de te fazer falta.
O Baptista nem queria acreditar! Estavam ali cento e cinquenta euros!
Afastou os pruridos e ao fim do dia foi-lhe entregar a carta que o Caldeira mandou publicar na Gazeta, sob sua autoria, como se tivesse sido escrita por si próprio.
Durante mais de quinze dias o Baptista escreveu outras tantas cartas, alternadamente para o Gaspar e para o Caldeira. E, de cada vez, como o Baptista se começasse a fazer caro, os preços iam subindo. Pela última delas, já o Caldeira lhe pagou duzentos e cinquenta euros!
A Gazeta esgotava-se nas bancas logo de manhã cedo. Os leitores não perdiam pitada da controvérsia entre os dois maiores comerciantes da terra. A publicidade no jornal aumentava e o director chamou de novo o Baptista para reingressar no quadro de colaboradores, visto que as condições financeiras melhoraram a olhos vistos...

Rui Felicio

sábado, 25 de maio de 2013

NO REINO DE LILLIPUT

A História daquele País, riquissima e quase milenar, atestava superiores e grandiloquentes feitos, protagonizados por Grandes Homens, de elevada estatura.

Mas por alguma incógnita razão, súbitamente, nas últimas décadas, os destinos daquela Ilha foram sendo tomados nas mãos de homens cujas desmedidas ambição, egoismo, insensibilidade e incompetência cresciam na proporção inversa da diminuição acelerada dessa estatura.
O grande País que já fora, transformara-se num território dirigido por minúsculos lideres, subservientes com os fortes, intransigentes e exploradores dos fracos.
Tornou-se num verdadeiro Reino de lilliputianos que o forasteiro e gigante Gulliver dominava a seu bel-prazer.
No topo da hierarquia do poder, passou a pontificar o lilliputiano Dom Palonso, acolitado pela sua consorte, conselheira e influente Dona Papoila.

Queixou-se um dia Dom Palonso, em resposta a uma pergunta jornalistica, que os rendimentos que auferie eram insuficientes para as despesas do casal, pese embora serem mais de vinte vezes superiores aos da generalidade dos vassalos.
E Dona Papoila, de olhos em alvo, abanava afirmativamente a cabeça em sinal de concordância e aplauso, quando Dom Palonso, entre duas mastigadelas de bolo, borrifando os jornalistas com as migalhas que lhe saltavam da boca, explicava que essa diferença era justa e razoável, tendo em conta os inestimáveis serviços que tem prestado ao Reino.

E que, para defender os interesses de todos, incentivava os vassalos a consumirem apenas produtos nacionais, para eliminar o desequilibrio da balança de transacções correntes.
Designadamente peixe e frutas, mau grado há uns anos atrás ele próprio ter mandado destruir a frota pesqueira e as explorações agricolas, a conselho e por imposição do gigante Gulliver.

Dona Papoila sussurrava-lhe ao ouvido e Dom Palonso repetia, que os vassalos lhes seguissem o exemplo, platando laranjeiras e macieiras como o casal fez no sul da ilha povoada por ancestrais descendentes de magrebinos.

E quando o gigante Gulliver aprovou com distinção e elogiou o comportamento da governação do Reino, Dona Papoila, certamente em íntima conversa de alcova, confidenciou ao seu consorte, que tal êxito se ficava a dever à divina influência mariana, Dom Palonso apressou-se a dar a boa nova urbi et orbi.

Mais tarde, por sugestão de Dona Papoila, Dom Palonso convocou inesperadamente o Conselho Geral do Reino.
Os vassalos ainda ficaram esperançados, como náufragos agarrados a uma qualquer tábua de salvação, de que dali saisse alguma solução para a melhoria das suas actuais e desgraçadas condições de vida.

Pura ilusão!
Afinal, em vez de se discutirem os males que os afligem agora, o tema do seminário foi uma intelectualisima e académica sessão de adivinhação futura de algo que não aquenta nem arrefenta às actuais e degradantes condições de existência dos vassalos do Reino.

Supõe-se que a convocação terá sido feita pelo puro prazer orgásmico de abanar e fazer soar os sinos mediáticos e das vaidades mundanas, na oculta esperança de que a inusitada iniciativa, pudesse vir a ficar registada a letras de ouro nos anais da História, como mais um importante contributo de Sua Excelência para o Bem do Reino...
Rui Felicio

sexta-feira, 3 de maio de 2013

QUOTIDIANO NO CAFÉ DO SR. SILVA


Ao fundo, o balcão envidraçado pejado de bolos de arroz , jesuitas, duchaises, pasteis de nata e de Tentugal, brioches, queques...
Em cima dele num dos cantos, um pequeno barril de madeira que escondia a serpentina por onde corria a cerveja e que o Sr. Silva, dono do Café, de manhã e à tarde aconhegava com bocados poliédricos que ia partindo com uma martelo de uma enorme barra de gelo.
Na parede, destacado, um diploma de Tirador de Cerveja em nome do dono do Café.
Numa mesa, ao canto, o Afonso, o Silva, hóspede, que vivia num quarto alugado no primeiro andar, o Elói e o Munhoz, jogavam aos dados.
Ao lado, noutra mesa, o prof. Ilharco, de lunetas redondas encavalitadas na ponta do nariz, impacientava-se e intimava o Sr. Silva a ultimar o trabalho de meter gelo no barril para se vir sentar para uma partida de damas.
No meio do ruido dos dados a rebolarem estrepitosamente no tampo da mesa ao lado, o Afonso ia apontando num papel, os tentos de cada parceiro, sempre sob o olhar desconfiado do Munhoz que não se cansava de dizer que ele queria ganhar na secretaria.
O Sr. Silva, de cabelo preto arrepiado da frente para trás, entretanto já sentado em frente ao prof. Ilharco lá ia movimentando as pedras, carregando fortemente naquela que acabara de deslocar.

Fitava o Ilharco e sentenciava com ar melifluo:
- Vou lhe colocar aqui um prego!
- Ah! Você disse um prego, articulava o Ilharco pensativo, fazendo uma careta...
Na mesa ao lado, o Eloi, pausadamente, proclamava:
- Poker de ases!
E o Sr. Silva, sem despregar os olhos do tabuleiro das damas:
- Ele disse poker de ases...
E o Ilharco:
- Ah, você disse que ele disse poker de ases. Mas se não se pôe a pau, como lhe três e faço dama.
- E eu como-lhe a dama! Aqui não há pão para malucos...
- Ah. Você disse malucos...
- E o Munhoz na mesa do canto, ao mesmo tempo que chocalhava os dados dentro do copo de cabedal, antes de os lançar:
- Ah, ele disse que lhe comia a dama! Olha, fullen de reis por valetes. De mão! Aponta aí, Afonso!

Entra o Feliciano, de livros debaixo do braço:
- Sr. Silva, queria um café e um bolo.
- Tire-o. Sirva-se! O café são oito tostões e o bolo doze, respondia-lhe o Sr. Silva sem tirar os olhos do jogo das damas e estendendo a mão para receber o dinheiro.
- Vou-lhe fazer o pé de galo, dizia o Ilharco quando ficou com três damas contra uma.
E o Munhoz:
- Ele disse que lhe vai fazer o pé de galo!
Entre dentes, o Silva resmungava:
- Para isso tem de me tirar do rego.
- Ah, você não sai do rego...assim também eu, dizia o Ilharco, contrariado.
- Está de esquina! Não vale!, dizia o Afonso ao Eloi que reclamava uma sequência máxima.
- Pois, é como eu digo. O gajo ganha sempre na secretaria, berrava o Munhoz com um murro na mesa que fez o dado esquinado assentar numa das faces.
- De esquina? Qual esquina?, respondia-lhe o Eloi apontando para os dados.

Era assim o dia a dia no Café do Sr. Silva...

Rui Felicio
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